Chico Saraiva
Cheguei a tocar rock, aquela coisa de garoto, mas minha fantasia de ser solista passou, fui tendo um maior envolvimento com as canções e composições”, e o vencedor-do-prêmio-Visa enumera seus músicos preferidos, todos os grandes brasileiros que são filhotes de Villa-Lobos como Dori Caymmi e Egberto Gismonti, “eles receberam o legado do compositor; existe uma linguagem brasileira orientada pelo Villa-Lobos. Ele compreendeu o Brasil, apesar de ter vindo da música erudita, entendeu a alma brasileira, ele era sofisticado e popular, essa dialética que me fascina, é o que eu fico procurando, comecei com essa coisa do Villa-Lobos”, entusiasma-se. Explica Chico, contando que é um compositor que parte do violão para criar suas músicas.

O violonista conta como compõe
“No arquétipo das pessoas o compositor é o cara que canta, eu não canto, eu monto as harmonias e melodias a partir de instrumentos, tenho eles como um referencial, afinal eu vim da música instrumental”.
Chico detalha que sua canção chega por um outro lado que é o da melodia e da harmonia, e não a canção que vem através da palavra.

Fã de Zeca Baleiro, Lenine, “ele é um cara rítmico e da palavra” e Tom Jobim, Chico confessa que um dos momentos mais bonitos que viu, em termos de apresentação musical, foi com os chorões – um grupo que faz shows na rua Lacerda Franco, em São Paulo, “tem um boteco onde tocam Zé Barbeiro e Stainley, músicos do violão de sete cordas e do pandeiro, que é a coisa mais bonita do planeta”.

Chico é consciente de que, para apresentar ao público determinado tipo de música é importante escolher o jeito certo. “A arte depende das sutilezas”, fala sobre as composições de Jobim que têm uma sofisticação especial que só dá certo num plano de escuta atenta, num momento de reflexão interior de quem ouve, com swing também.
“É um trabalho sem fim de encontrar a boa música e difundi-la. O meu irmão de 20 anos já não teve acesso à obra de um Chico Buarque da forma que eu tive. Mas isso não é saudosismo, existem profissionais dessa geração que estão criando hoje. A preocupação que tenho em minhas aulas é a de mostrar para os alunos não pararem, verem que a arte muda”.

A sabedoria das empregadas
Ainda sobre como reconhecer boa música, Chico conta que na época do choro em que Dilermando Reis era um “violonista herói”, ele era reverenciado pelas empregadas; só tocando instrumental, era ídolo popular. Depois essa assimilação da música instrumental, na análise do compositor, ficou pra trás a partir da década de 80, com a voracidade da indústria cultural.

A velocidade e a trégua
Agora sobre a velocidade da indústria e de nosso mundo, “é até legal você falar isso da velocidade que eu vou até pular meu primeiro disco e falar agora desse que eu estou fazendo, eu voltei do rapaz que me ajuda com as coisas de gráfica e tem uma música que o Luiz Tatit chegou numa das minhas melodias e colocou o nome de Trégua e eu te digo agora que esse vai virar o nome do meu disco, decidi há pouco e eu tenho que decidir porque já me pediram pra deixar pronto para 20 de setembro. E esse título diz respeito a essa velocidade sobre a qual estamos falando”.

Como reverter tanta pressa, tanta loucura? Chico diz que a saída é pedir trégua mesmo, ao artista resta propor o contraponto ao incessante, “aliás, isso é feito de algum modo por Lenine – entre na pressão e é preciso ter paciência – isso é verdadeiro para ele, mas o moderno hoje é não parar”. Mostrando um lado filósofo, o compositor fala que gostaria até ouvir e saber das idéias de teóricos e pensadores modernos sobre essa questão da velocidade. Lembra-se da visita de Eric Hobsbawn ao Brasil, “ eu queria muito ter ido, mas estava gravando com o Tatit”.

Sons e letras
“No meu trabalho atual tem batucada também, mas não utilizo artifícios de outros gêneros, pois aqui mesmo no Brasil temos o maracatu, frevo e o samba, se eu fizer 20 faixas num cd eu não dou conta de todos os ritmos brasileiros”.

O compositor se diz feliz com o novo cd, principalmente pela descoberta de que tudo que vinha fazendo está muito entrelaçado com o universo da canção, “eu coloquei a primeira letra numa música minha e eu mesmo levei um susto...era teimoso, ficava só no violão, tocava muito pouco em meus shows as canções que eu estou executando hoje”.

“O Tatit criou uma letra para uma música minha, que era melodia para Incerteza e virou uma canção (que está no meu primeiro disco) e ficou muito incrível o que aconteceu ali. Eu mesmo, quando fui tocar num show eu me emocionei com o que estava acontecendo e vi meu caminho, abriu uma porta”, anima-se.

Chico conta que já compunha com o parâmetro da canção e que de uns três anos pra cá começou a receber cantoras para a interpretação de suas músicas, surgiu a parceria com a Ana Luiza, “que é uma grande cantora e entende de melodias”.
A persistência do compositor está não só em inovar, mas em propor outras formas de compor, buscar uma intérprete e um letrista que tenham essa mesma angústia na criação.

“Nunca estive tão feliz artisticamente”
Anunciando os bons tempos, Chico lembra que o novo álbum é composto por 14 músicas, sendo 4 delas instrumentais, “mas isso está ainda em aberto”, completa. Participações da cantora mineira Ceumar, “afinal ela tem esse pé no passado com olho no futuro, e uma voz que eu vou te contar de bonita!”. E Ana Luiza certamente.

Agora os poetas: cita Celso Viáfora – cuja letra acabava de chegar à casa de Chico no momento da entrevista. Outros parceiros fiéis são o incentivador Luiz Tatit, o compositor e parceiro musical de Ana Luiza, Luiz Felipe Gama, Clovis Berzons (parceiro de Elton Medeiros), “que é de uma geração que eu reverencio”, além de Manú Lafer, da minha geração. Outros contatos, segundo ele, ainda no plano da interpretação, podem vir tanto do Norte quanto do Sul, de sua minha geração ou não. Os Ritmos: baião, frevo, “sou um cara introspectivo e o Trégua tem essa característica também”.

“O nome Trégua é bom para explicar realmente o que eu penso, é um título que fala, que se coloca. Estou muito feliz com essa escolha do nome porque propõe uma pausa, é um momentinho aí. E arte é isso, a música erudita sempre foi isso. Não sou reclamão, mas estou externando meu descontentamento, estou à vontade porque estou seguro com a minha arte”.

Antes da trégua a Água
Em 1999 Chico lançaria seu primeiro cd, “Água”, pelo selo Cântaro. “Este selo, na verdade,era uma ação independente, de um grupo de amigos que gostavam de fazer coisas teimosas”, assim Chico descreve a iniciativa e o apoio dos músicos que participaram desse trabalho.

Recorda-se do baterista Eduardo Ribeiro e do baixista José Nigro, “que hoje é um está mais voltado para à musica veloz” (risos).

Águas chega hoje, em 2003, relançado pela gravadora MCDWorld Music, com distribuição mundial, e já está nas lojas (desde 99 sua distribuição era independente), mas “depois do Visa as pessoas compraram mais o cd, o objetivo final é dar acesso a essa música mesmo”.

Mas antes de todo mundo, Guinga teve sensibilidade de escutar este primeiro disco, e tudo que vem acontecendo teve como ponto de partida isso, o que Chico Saraiva vive hoje “são desdobramentos muito coerentes” daquilo que Guinga enxergou muito antes.

Matéria e edição por Fabíola Mello [staff do Jornalismo brmusicguide]
Arte {Tô Passado Entretenimentos}
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