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Violão na mão, dedilhando as cordas, falando com um e com
outro antes da passagem de som de seu show em São Paulo, no Teatro
Popular do Sesi – Fiesp (em agosto). E vai contando aos poucos,
abrindo brechas para se saber como será seu próximo cd.
Logo ao ser perguntado sobre esse trabalho mais recente ele avisa: “Olha
o novo disco tomou um outro rumo, não é mais exatamente
uma homenagem ao Rio de Janeiro ou a São Paulo. Vai se chamar “Noturno
Copacabana”, porque eu precisava fazer uma homenagem àquele
universo, afinal Copabacana é mesmo em termos urbanos e de cultura
um dos ícones mais famosos do Brasil, talvez do mundo”.
E enquanto eu deduzia, durante a entrevista, que o tal do cd seria bem
carioca, sou surpreendida pelo compositor: “Mas São Paulo
sempre teve alguma ligação com minha música, Maresias,
uma das composições do novo cd, mostra bem essa relação
do mar carioca com São Paulo, aliás tem muito paulista nesse
disco” e emenda falando do compositor Luiz Felipe Gama, um de seus
parceiros paulistas .
“Minha gravadora e muitos dos meus trabalhos acontecem em São
Paulo e é claro que isso sempre coloca o que eu faço em
confronto com essa cidade”, continua mantendo o mistério
sobre o novo cd.
Mas
quem está na “Noite Copacabana”?
Contando
sobre sua agenda antes de falar de quem participa do “ Noite”,
Guinga fala das turnês programadas para dezembro, na Itália,
em janeiro nos Estados Unidos e em fevereiro na Austrália.
Volta a brincar junto ao violão, “ No Brasil estou aqui,
hoje, graças a Deus (risos), estive no projeto do Eduardo Gudin
no Sesc Pompéia, estarei em Minas Gerais depois de amanhã,
e vou começar a viajar pelo Nordeste”.
Para final de agosto e início de setembro há a previsão
de lançamento do “ Noite” e Guinga solta a voz finalmente
“ acho que venho lançar aqui em São Paulo: eu, Ana
Luiza ( cantora paulista que conheceu e chamou para seus últimos
shows) e nossos músicos”.
Agora as composições do novo trabalho. “Tenho duas
parcerias com o Luiz Felipe Gama, pianista paulista, que fez duas letras
para mim neste cd. Com o Aldir Blanc que é um grande amigo meu,
parceiro e irmão. Tenho três com a Simone Guimarães,
duas com Mauro Vianna” e olha para Ana Luiza perguntando, “mais
nada né? São 10 canções e tem mais uma com
Chico Bosco, de onde saiu o título do trabalho, Noite Copacabana.”
E
começa a dedilhar novamente o violão enquanto fala sobre
Festivais e os novos nomes da música nacional. Guinga diz acreditar
em qualquer movimento que seja para apresentar o que está acontecendo
com a música brasileira e os festivais se enquadram como mais uma
possibilidade de se saber o que os jovens estão fazendo.
“ Você vê... ganhou o Visa agora o Chico Saraiva, que
eu já conhecia, mas é que eu vivo procurando... eu tinha
outros amigos concorrendo, fiquei muito feliz por eles, acho que nessa
peneira dos festivais o que é verdadeiro acaba ficando, mesmo que
tenha que lutar diariamente, quem é bom fica mesmo depois da morte”,
proclama.
O Brasil é um manancial
Guinga adora falar dos talentos que descobre, dos novos
nomes que fazem a música que resulta em qualidade. Sobre misturas
musicais, mostra-se aberto ‘pero no mucho’ , “ tudo
pode, desde que resulte em qualidade”.
Cita outra vez Chico Saraiva, como grande violonista e compositor; Sérgio
Santos, “que concorreu com ele no Visa e é um dos grandes
compositores brasileiros, Cláudio Nunes.
maravilhoso, Vander Lee, Celso Adolfo; bom músico, bom compositor;
o Brasil é um manancial”, entusiasma-se.
Com
ar de mecenas, Guinga vai citando nomes ainda desconhecidos, perdidos
pelo Brasil a fora, “acabou de sair de São Paulo a Simone
Guimarães que é uma grande cantora e compositora, instrumentista,
letrista, maravilha de artista. Ela já tocou com o Juarez Moreira
e Milton Nascimento”.
E vai lembrando, “Lúcia Helena, artista que vive esquecida
lá no Sul, um gênio cantando, aquilo ali não nasce
toda hora, mas ela é mais conhecida por lá”.
Diante do manancial, pergunto com quem ele gostaria de manter parcerias:
“Ah com estas pessoas mais ligadas a mim, a Fátima Guedes,
a Ana Luiza (cantora que ele escolheu para o show na Fiesp em São
Paulo) e que conheceu em Brasília, numa aula de canto popular.
“Primeira vez que eu ouvi falei: essa mulher canta muito. Mas agora
as coisas estão caminhando para a justiça. (referindo-se
ao fato de Ana Luiza estar se apresentando em São Paulo agora).
E suas musas não param de surgir, “a Maria Rita, filha da
Elis, canta muito”. Guinga filosofa sobre a vida na música:
“Em Curitiba, dando aula no verão, vi uma moça com
uma voz linda - cantando na noite, há uma certa crueldade na vida
artística, às vezes existem fatores que dependem muito mais
do ser humano, do que do artista. Se o ser humano é obstinado,
um lutador tudo bem, mas se há o medo aí ... (falando sobre
a vida de cantores e cantoras no Brasil), “já o compositor
tem uma obra que acaba permanecendo”.
Umbigo
da música
Nascido e criado no subúrbio carioca, Guinga já homenageou
ao longo da carreira essa região repetidas vezes, mas – como
diria ele mesmo – “ ao mesmo tempo eu fui embora do subúrbio
aos 21 anos e moro há 32 na Zona Sul, sendo 10 em Copa e 20 e poucos
no Leblon. Então, na realidade a zona sul faz parte da minha vida,
eu adoro essa região, apesar de que sempre associo minha música
ao umbigo dela, que está nos quintais suburbanos”.
Regiões a parte, Guinga arremata essa história num simples,
“ minha música é brasileira, é de ser humano”,
e nisso entra alguém no camarim e ele já faz uma brincadeira.
Ana
Luiza, sintonia entre cantor e compositor
Sentada
próxima ao espelho do camarim, a cantora Ana Luiza conta como conheceu
Guinga e sobre a parceria entre cantor e compositor. “ Nos conhecemos
no curso internacional de verão em Brasília e eu fui convidada
para dar aula de canto popular e o Guinga foi dar “aula de Guinga”,
como ele mesmo diz, nos conhecemos lá através de um amigo,
fiz algumas apresentações com ele”. Isso em janeiro
de 2002.
Ana Luiza conta que Guinga conheceu seu primeiro disco, feito em parceria
com o Luis Felipe Gama, daí também o compositor ter se interessante
em tocar ao lado do pianista paulistano. “ O Felipe letrou duas
músicas do Guinga, uma está no disco da Simone Guimarães
e essa mesma música eu gravei para o Noite Copacabana, esse novo
trabalho do Guinga”.
Mas
foi com o primeiro disco, “ Águas Daqui”, do grupo
“O Vento”, do qual Ana Luiza e Felipe fazem parte, que Guinga
conheceu sua voz. O Vento é um Núcleo de criação
musical formado pela cantora, Felipe, sua irmã Juliana Amaral,
também cantora, e o trompetista Paulinho Batista.
Sobre a forma como os compositores conhecem os cantores, Ana Luiza fala
com fé: “ eu acho que a comunicação que a música
é capaz de fazer transcende as fronteiras”.
Interação entre a voz e compositor
Sobre
seu trabalho de 10 anos ao lado de Felipe, Ana Luiza afirma que é
uma mescla entre canção, cantor e instrumentista. Existe
uma sofisticação, uma elegância e um requinte no trabalho
do Guinga que me atraiu, ele até brinca “A Ana é de
Paris”.
Mas Ana considera que essa herança de música brasileira
vem de Villa-Lobos e Tom Jobim e é isso que ela e o parceiro Felipe
buscam há 10 anos na sonoridade paulistana.
Entre os trabalhos mais recentes “O Vento”, a trupe fechou
uma temporada toda acústica no Teatro Cacilda Becker, em São
Paulo. “Foi tudo completamente acústico: baixo, piano, trompete,
bateria e as vozes, é algo diferente. Pretendemos voltar à
Brasília ainda neste semestre e em agosto planejamos ir para Curitiba”,
abre a agenda a cantora.
Ana Luiza quer mais espaços para que músicos e intérpretes
se encontrem, “muitas vezes você não consegue chegar
até os músicos para essa troca, tem que ser algo como o
curso de Brasília , em que estão presentes professores e
alunos do mundo inteiro. Só mesmo lá para eu encontrar o
Guinga no café da manhã, ele morando no Rio e eu em São
Paulo, nunca isso aconteceria”. E comenta rindo sobre a facilidade
com que o Guinga encontra, por exemplo, o compositor João Bosco
na praia, lá no rio, e as longas conversas entre os dois.
“ Isso eu acho interessante, essa comunicação, se
não fica todo mundo fechado, ccada um no seu gueto!”.
Ana Luiza conta que “ O Vento” pretende montar um workshop
em Curitiba para promover justamente este tipo de encontro, onde nomes
como Mônica Salmaso aparecem porque ministram aulas por lá.
“É muitas vezes neste esquema meio acadêmico que acabamos
nos conhecendo”.
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