Sergio Rossoni
“Fogo Cerrado” surgiu das minhas observações
no eixo Rio - São Paulo, olhando a baixada fluminense e suas contradições, assim como a marginal. Quando você chega aqui em São Paulo, é esse abismo entre as classes que está gerando a violência”, externa o músico Sérgio Rossoni, também um dos sócios do selo e estúdio Zabumba.



“Não conseguimos digerir tudo que nos é oferecido, tanto no noticiário, quanto na arte”.

“O fogo cerrado é esse momento de quebrar isso, a influência maior veio da música pop, com uma linguagem jazzística, mas bem voltada para o pop”, explica Sérgio. Acesse a faixa "Da Janela Eu vejo a Cidade". Ligeira, a instrumentação dá a dimensão da velocidade e da cidade grande vista por Sérgio Rossoni Grupo.

Já “Pescadores”, primeiro cd do grupo, era mais próximo dos músicos, levava algumas baladas e uma introspecção maior. Mas, o que é interessante na elaboração de Fogo Cerrado é o fato de Sérgio Rossoni expressar um momento seu de vida, também sob fogo cerrado.
Mesmo um ouvido leigo, embora não perceba o lado complexo da produção deste trabalho, acaba gostando e tendo a percepção da mensagem transmitida, além da compreensão fica a originalidade. Sérgio explica que o trabalho foi cansativo e que houve demora na composição porque “queria sair deste lado meu de compor música brasileira”; daí a dificuldade em fugir de um samba, um baião, o que demandou seis meses para compor o disco inteiro.

Mais nervoso
Tanta batalha foi para que o cd tivesse outra sonoridade, não a da música brasileira que estamos acostumados a ouvir, nem “mesmo um brazilian jazz”. O desafio do Grupo estava em construir música pop e atingir essa sonoridade em estúdio.

Foi então que o técnico, Marco Nogueira, do Sérgio Rossoni Grupo, orientou os músicos a misturar rock e pop. O disco inteiro foi então gravado em sessões separadas. Só para se ter uma idéia: “gravamos o disco inteiro valendo só bateria, depois só o baixo, e fomos montando tudo, o que demorou oito meses. Não teve ‘overdub’ (processo de gravação onde normalmente tudo é gravado depois da base, ou seja, após a gravação da bateria, baixo, piano e outro instrumento de harmonia)”.

“Fizemos cinco sessões para gravar o violão e cinco para o baixo, é assim que funciona o processo na música pop”, arremata.

Algumas influências como a banda Dave Matthews Band e o guitarrista Pat Martino, ou mesmo o próprio jazz aparece em Fogo Cerrado, “algo que é possível assimilar logo no som da bateria, diferente de quando se introduz um samba sutil num jazz brasileiro”. Se tiver que ter um adjetivo, Sérgio diria que este é um disco mais nervoso em relação ao primeiro do grupo.

Dia-a-dia pop
Quando perguntei ao músico quem melhor retrata atualmente os temas de nossa época, a violência e a miséria contraditória das grandes cidades. Sérgio afirma que essa temática talvez tenha sido um pouco traduzida no cinema. Ele acredita que essa questão está mais exposta no noticiário, no nosso dia-a-dia, Sérgio até brinca com a expressão fogo cerrado, que para ele significa: “viver estas situações complicadas”.
E sobre as tais situações, Sérgio exemplifica falando sobre o mercado da música no Brasil: “acho que isso tudo é o fogo cerrado, é difícil você ter um trabalho sem um apoio, é preciso lutar o tempo todo contra o descartável”.

Nessa luta diária, o Zabumba, tanto o estúdio quanto o selo de mesmo nome, vão de alguma forma recebendo novos artistas, lançando e gravando novos trabalhos.
Sérgio explica que ele cuida do selo e os sócios do estúdio. Este último existe há seis anos, e por ele já passaram o Núcleo Contemporâneo de Música e nomes como o de Ná Ozzetti. “Temos um nome no mercado cultural, mas o selo mesmo começou de verdade há uns quatro anos atrás, com discos independentes”.

Hoje o Zabumba possui 15 títulos e entre seus lançamentos estão a cantora Márcia Lopes e o violonista Paulo Gusmão. “Hoje em dia nosso catálogo é 95% instrumental, e está crescendo. Muito do Zabumba selo nasce do estúdio e mesmo nome, afinal é grande o número de pessoas que gravam aqui no estúdio e depois fazem uma proposta para o selo”.

Foi assim com o grupo Aquilo Del Nisso, por exemplo. Agora, saindo do forno, estão dois novos cds: um do grupo Terra Brasil, duo de piano e saxofone, um cd que vai chamar Encontro das Águas e no final do ano mais um cd do saxofonista-da-banda-do-Jô, Derico, artista do Zabumba, além de um novo trabalho da cantora Suzana Sales.


Será que as grandes se rendem?
Com os olhos de quem circula entre artistas sem espaço na mídia ou no mercado fonográfico de forma geral, Sérgio Rossoni comenta que o mercado independente está crescendo, “independente não significa alternativo, mas apenas ser independente das majors, das grandes gravadoras”, define.

Em recente pesquisa, lembra Sérgio, hoje o mercado de música independente corresponde a 60%, quase 70% da produção na indústria fonográfica, “ é um mercado grande, que ainda não sofre com a pirataria, pois destaca artistas que estão despontando”.

O sócio do Zabumba fala no independente como um nicho de mercado e observa que mesmo as grandes lojas de cds estão procurando este tipo de música. “Estamos discutindo na ABMI (Associação Brasileira de Música Independente) o fato das próprias empresas sentirem necessidade de ter mais conteúdo. As pessoas estão começando a perceber o descartável, aliás sempre existiu essa procura das pessoas pela boa música. É preciso ampliar o número de lugares para que o público possa freqüentar e conhecer estes artistas. Cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro têm poucas casas de show para este nicho e existe um público a este tipo de música”.

Lançado o desafio ao mercado, ao menos o Zabumba e os artistas já estão fazendo sua parte.


Matéria e edição por Fabíola Mello [staff do Jornalismo brmusicguide]
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