Entrevista Exclusiva com VANESSA DA MATA
Mas antes de começar nossa conversa sobre passado, presente, cd, livros e encontros, Vanessa fala sobre o dia em que o compositor Chico César convidou-a para tocar violão. Enquanto ele ficava na cozinha, ela dedilhava o possível nas cordas do instrumento. “Eu fui atrás do Chico César levar uma ‘demo’ minha e ele estava meio atrapalhado com a gravação de Mama África, aí cantei ‘Viagem’ para ele”.

De repente Chico vira para Vanessa e diz: “escuta eu vou à cozinha e você toca alguma coisa aqui (mostrando o violão)”. Depois do encontro inusitado, o compositor enviaria quatro músicas para a cantora interpretar, “fiquei eufórica”.

Também depois, o compositor seria seu parceiro na canção “A Força que nunca seca”, com letra de Vanessa, a música virou título do cd de Maria Bethânia, em 99. “ E olha que o Chico nem gostava desse nome”.
“A força que nunca seca” está no primeiro cd de Vanessa e apresenta uma estética meio “doce seca sertaneja”, como a retratada muitas vezes no cinema brasileiro atual, mas o inteligente jogo de palavras estruturado pela letrista diferencia esta canção – “pra cada braço uma força, de força não geme uma nota; a lata só cerca, não leva, a água na estrada morta; e a “força nunca seca – pra água que é tão pouca”. Em seu cd o violão muito bem colocado de Pedro Sá dá o tom à letra e na voz de Bethânia não há necessidade de se comentar no que esta canção se transforma.

Com o violonista Swami Jr, Vanessa empreendeu também uma produção conjunta para o disco de Maria Bethânia. O músico também faz parte de sua banda.
De qualquer forma, a valente Vanessa tem luz própria através de suas interessantes letras e não haveria necessidade dela ter medo “dos fantasmas de sua voz”, como canta na primeira faixa em Não me deixe só. Dotada de uma voz suave, que hoje recebe os cuidados das aulas de fono para aquecer a garganta.

Sua agenda está bem aquecida, esteve neste agosto em Belo Horizonte, dia 21 esteve no MIS (numa homenagem a Adoniran Barbosa, com participação dos Demônios da Garoa e Max de Castro, dia 22 Ribeirão Preto (interior de SP) e depois Campinas. Setembro, dias 12 e 13 no Teatro Paiol.
Apesar do seu cd ter saído em 2002, os shows que divulgam o trabalho estão acontecendo agora, sob suspiros Vanessa confessa: “ ai tá tão bom...”; referindo-se às apresentações.



Do que fala Vanessa?
Tá bom mesmo, por demais. O cd está sendo lançado em Portugal e Espanha e no próximo ano no Japão.
Nossa jovem poetisa vai cantando sobre os temas que lhe apoquentam a cabeça, “em A Carta não dava para mudar o título, coisa que normalmente eu mudo, mas inseri embaixo do título a data, 1890”, conta a cantora sobre sua sede de história, de vivenciar esta época, “é como se fosse uma saudade do futuro e também do passado”. E relembra as décadas de 50 e 70, quando, segundo ela, existia uma ideologia, algo mais pueril, hoje “estamos muito enfraquecidos neste ponto, por falta de educação, a música teria de abrir os olhos da sociedade”.

Aos poucos, Vanessa, que se descobriu cantora no Projeto “Todos os cantos do mundo”, escolheu suas mensagens entre a obra de Assis Valente e Durval Maia para a faixa Alegria, que parece uma marchinha de carnaval, pregando uma alegria possível em meio à realidade da vida. Assis Valente foi compositor de alma trágica, particularmente esta canção guarda algo de esperança, assim como Vanessa ao longo deste seu primeiro trabalho.

Em Viagem; aquela cantada na casa de Chico César; tem letra de Vanessa, aliás como quase todas as canções do cd. É um samba suave, com swing e parece remeter a Fernando Pessoa quando diz: “... nada é em vão...”, algo como um “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Para a faixa 5, em Case-se comigo, aparece a letrista romântica, que declama sobre o amor sincero, de outra época mesmo, numa parceria dela com Liminha. Contraponto desta é Delírio, composição mais livre, contemporânea e descompromissada. Mas a marca de Vanessa, sua docilidade, seu gosto pelo passado, sem ser passadista, aparecem mais em “A Carta – Ano de 1890”, com arranjo e regência de Jacques Morelenbaum e violão de Swami Jr, arrematando com Marcus Suzano na percussão. A letra remete à obra de Machado de Assis “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “ Helena”, suas mais recentes leituras no momento de concepção do trabalho.

O ar global da compositora está na parceria com o “ world music” Lokua Kanza em “ Eu não tenho”, que conta com Chico Chagas no acordeom e tem letra que poderia ser aplicada tanto a um refugiado como a um sertanejo brasileiro. Ela termina “Bem da vida”, “abolindo quase toda a maldade”; clamando pela infância e pela esperança de quem acredita num caminho para a música além da realidade nua e crua.

Comida da alma
“Gosto muito de Literatura Brasileira e de temas que envolvem a natureza, o intuitivo, a alma da floresta, o místico, as árvores e as artes indígenas”.
Vanessa carrega bagagem de quem se alimenta de “comida da alma”, como diz ela mesma sobre suas leituras: Helena, Iaiá Garcia, O alienista; Viva o Povo Brasileiro, Grande Sertão Veredas e as lembranças das frases de sua avó, “muitas coisas do que ela dizia, eu acabei lendo”; a biblioteca se estende para Canto dos Escravos e vinis com canções de Clara Nunes.
Mas a jovem Vanessa ouve Bjork, Coldplay e muito rock melancólico também, no entanto alerta que este último é só para alguns momentos, para abrir o dia “eu sempre ouço Madredeus ou Eric Tatit”.

Vanessa diz que só se descobriu cantora em “Todos os cantos do Mundo” e sobre os encontros entre compositores, ela defende que estes aconteçam num clima sem competição, apesar de considerar que os “festivais são como murais” de quem está compondo e cantando.

Melodias e harmonias para a crise mundial
Vanessa enxerga uma crise mundial, latente no inconsciente coletivo, tanto em termos culturais quanto na velocidade das informações. "Acredito que compositores como um Chico Buarque, um Lenine e Tom Jobim foram geniais por conseguirem passar mensagens profundas e ao mesmo tempo serem assimilados, compreendidos pelo grande público.
Ela cita nomes ainda desconhecidos como da compositora e arranjadora Renata Rosa, “que tem trabalhos do folclore do Recife e transforma isso em algo moderno”.
E Junior Barreto, “que faz música de terreiro de candomblé e drum´n bass; mas não utiliza uma transcrição formal, tem um jeito cortado, é a mistura ideal de algo vivo e da tecnologia do computador”, analisa Vanessa, dizendo que gosta de música folclórica percussiva, em que as melodias e harmonias são muito ricas.
Rica ainda é a vontade da escritora Vanessa, que nos dá a possibilidade de sonhar um pouco em meio ao noticiário, à globalização. Viva a época de Vanessa!

Matéria e edição por Fabíola Mello [staff do Jornalismo brmusicguide]
Arte {Paraísos Artificiais}
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